Maternal

Pequenos Narcisos


O espelho é um importante recurso para que as crianças conheçam e se conscientizem sobre sua imagem. Aproveite-o nas brincadeiras do dia a dia


Objetivos:
Construção e reconhecimento da autoimagem e da identidade
Desenvolver a organização espacial
Promover a socialização

Periodicidade: várias vezes por semana


Uma sala de Educação Infantil costuma ser decorada com cartazes, murais, varais de trabalhos e, não raramente, um grande espelho. De acordo com o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil - Formação Pessoal e Social - Volume 2, "o espelho é um importante instrumento para a construção da identidade.
Por meio das brincadeiras que faz em frente a ele, a criança começa a reconhecer sua imagem e as características físicas que integram a sua pessoa". Por isso deve constar da lista de itens essenciais em uma sala de aula, podendo ser usado em atividades específicas, mas também ficar disponível para que a criança o utilize quando desejar. Rosana Ziemniak, coordenadora pedagógica da Educação Infantil do Colégio Magister, de São Paulo, recomenda que além do espelho fixo, o professor também tenha um espelho móvel que possa "passear" pela sala.
"Brincar de se colocar no lugar do outro, fantasiarse e maquiar-se é importante para nos fundirmos e depois nos diferenciarmos do outro, construindo, gradativamente, a noção de nós mesmos", diz Julia Souto Guimarães Araújo, coordenadora pedagógica da Educação Infantil da Escola Estilo de Aprender, também de São Paulo. "O trabalho com espelho é maravilhoso porque ajuda a criança a perceber que ela tem um corpo que ocupa um espaço único e que ela não pode ocupar o espaço do outro", completa Rosana Ziemniak. Veja a seguir atividades (com e sem espelho) para trabalhar a autoimagem.

 

Materiais:
★ Espelho grande fixo na parede da sala (que permita que várias crianças possam se observar ao mesmo tempo de corpo inteiro) ou uma parede de espelho (como aquelas presentes em aulas de dança)
★Espelhos pequenos

 

Como aproveitar o espelho na sala de aula

1. Contação de histórias. Sente-se com a turma em roda, no chão, próximos ao espelho fixo da sala. Quando aparecer na história gestos ou movimentos corporais que você considere significativos (por exemplo, o personagem colocou a mão na cabeça), peça às crianças para imitar a cena, olhando-se no espelho. Essa atividade também pode ser realizada fora da sala com um espelho móvel.

2. Trabalhando a diversidade. Peça para as crianças ficarem em frente ao espelho e se observarem. Pergunte; "o seu cabelo é da mesma cor que o do seu coleguinha?", "Onde está a sua sobrancelha?", "Quem é mais alto?" etc.

3. Expressões faciais. De frente para o espelho, peça aos alunos para fazerem uma cara feliz, triste, de dor, brava etc. Você pode mostrar cartazes com diversas fisionomias para que as crianças imitem.

4. Faz de conta. Disponibilize fantasias, acessórios (chapéus, bijuterias, óculos etc.) e maquiagem e deixe as crianças explorarem a autoimagem livremente, inclusive utilizando o espelho como recurso.

5. Desenhando no espelho. Desenhe acessórios com tinta guache no espelho, como chapéus, coroa de rei ou de princesa etc. e depois permita que as crianças brinquem de "vestir" esses elementos. "Uma vez, a professora estava trabalhando o tema cinema, e desenhou o chapéu e a bengala do Chaplin", lembra Júlia Araújo, da Estilo de Aprender. Com turmas de crianças mais velhas, proponha que elas mesmas desenhem roupas, acessórios e partes do corpo, como bigode por exemplo, e depois brinquem.

6. Autorretrato. Essa atividade pode ser realizada a partir dos 3 anos. Distribua pequenos espelhos, um para cada criança, e peça para se olharem percebendo os detalhes do seu rosto. Depois, devem transpor esses detalhes para o desenho.

 

Brincadeiras sem espelho
Elas também são interessantes para brincar com a imagem.

1. Esconde-esconde. Com crianças pequenas, utilize objetos que possam ser usados para esconder o rosto ou o corpo (panos, lençóis, caixas, biombos), fomentando o jogo de esconder e aparecer. Você também pode esconder objetos (um brinquedo, por exemplo) e comandar uma "caça ao tesouro".

2. Imitação. Proponha situações onde as crianças imitem animais, sons, personagens, pessoas etc.

3. Brincando de casinha. Organize espaços, como uma casinha, um consultório médico ou um supermercado, para que as crianças possam representar diferentes papéis sociais.

 

LACAN E A FASE DO ESPELHO

A "fase do espelho", um complexo conceito do psicanalista francês Jacques Lacan, pode ser definida como um período psíquico que ocorre entre os seis e os dezoito meses de vida, quando a criança forma uma representação mental de sua unidade corpórea (até então ela acha que seu corpo é despedaçado) ao identificar-se com a imagem do outro (pais, coleguinhas, professor e a sua própria no espelho). Em outras palavras, o modelo do outro serve de espelho para iniciar-se a construção do eu da criança. "O reconhecimento de si mesma na imagem refletida em um espelho tem como função a formação rudimentar do ego (eu), que é necessário para que a criança possa constituir-se e, paulatinamente, ir diferenciando-se do outro, desalienando-se e amadurecendo para, mais tarde, tornar-se um sujeito humano pleno", explica Nilton Sanches, psicanalista e professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Mas o psicanalista destaca que a experiência pode dar-se tanto na presença do objeto físico espelho quanto de outra pessoa. Por isso, ele não considera necessário promover a fase do espelho na escola ou em qualquer outro lugar, pois ela ocorrerá de maneira natural. "A criança na idade do espelho precisa de referência identificatória. Precisa do outro, preferencialmente, de pai e mãe em boas doses quantitativas e qualitativas, ou, na ausência destes, de substitutos à altura para que possa identificarse e apreender sua unidade corpórea. As atividades com espelho são apenas eventos análogos à relação da criança com os pais", afirma Nilton.